sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Era uma vez um tempo...



«Era uma vez um tempo em que ainda não havia vacinas (ou havia muito poucas), e os meninos aguentavam semanas na cama, sem poderem ir à escola, desembaraçando-se alegremente de papeiras, varicelas, tosses convulsas e gripes que duravam eternidades. Era também um tempo em que ainda não havia televisão, nem se sonhava com vídeos ou jogos de computadores. Num tempo desses fiz a minha provisão de sonho e aventura: durante uma pneumonia, curada a papas de linhaça, li A Ilha do Tesouro e Moby Dick.
Por isso até hoje esses livros têm cheiro, o cheiro inconfundível dos remédios para sempre colado à ideia do cheiro do rum, da estalagem do Capitão Benbow, ou do convés do “Pequod”. E desde então aprendi que se pode viajar de muitas maneiras, com a companhia que quisermos, durante o tempo que entendermos. Basta um livro nas nossas mãos para que mundos verdadeiros e mundos imaginados se estendam à nossa frente, sem fronteiras, sem passaportes, sem horários de chegada ou de partida.
Infelizmente a literatura portuguesa não é muito rica em livros de viagens. Fizemo-nos ao mar - e dessa aventura demos conta nos Lusíadas; perdemo-nos por desvairadas terras - e dessa aventura demos conta na Peregrinação. Depois - cansámo-nos um pouco…
(…) É bom, porque existe um lugar (ou um sonho, ou alguém) a que vale a pena regressar.»
Alice Vieira

Sem comentários:

Enviar um comentário